Irã corta internet e reprime protestos nacionais que já deixam dezenas de mortos

As autoridades iranianas interromperam o acesso à internet e às linhas telefônicas em amplas áreas do país na noite de quinta-feira (7), em meio a uma nova escalada de protestos nacionais que já deixaram dezenas de mortos e milhares de detidos, pressionando diretamente o poder político e religioso da República Islâmica.

A interrupção das comunicações foi confirmada pela ONG de monitoramento digital NetBlocks e pela empresa de infraestrutura Cloudflare, que registrou uma queda abrupta no tráfego de dados atribuída a interferências deliberadas do Estado. Segundo NetBlocks, o Irã ficou “sob um corte de internet em escala nacional”, prática já usada em protestos anteriores para dificultar a organização e a divulgação de imagens da repressão.

O apagão digital coincidiu com manifestações noturnas em Teerã e outras cidades, após um chamado à mobilização do príncipe herdeiro Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, exilado nos Estados Unidos. Testemunhas relataram bairros inteiros da capital com pessoas gritando de varandas e milhares de manifestantes nas ruas.

Os protestos incluíram gritos contra o sistema político e seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, com palavras de ordem como “Morte ao ditador” e “Morte à República Islâmica”. Em outros pontos, foram ouvidos pedidos pelo retorno da monarquia, expressão considerada impensável décadas atrás e que demonstra o descontentamento de amplos setores da sociedade com o regime clerical.

As manifestações começaram em 28 de dezembro no bazar de Teerã, motivadas pelo agravamento da crise econômica, inflação e desvalorização histórica do rial, mas rapidamente se espalharam por todo o país. Segundo a AFP e organizações de direitos humanos, as mobilizações atingiram pelo menos 25 das 31 províncias iranianas e mais de 100 cidades, com fechamento de mercados, universidades mobilizadas e protestos diários.

O número de vítimas é alvo de divergências. A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, registrou ao menos 45 manifestantes mortos, incluindo oito menores, e mais de 2.000 detidos nos primeiros 12 dias de protestos, denunciando o uso de munição real pelas forças de segurança e classificando a repressão como “crime internacional”. Já os números oficiais iranianos reconhecem 21 mortos, incluindo membros das forças de segurança.


O dia mais sangrento foi quarta-feira (6), com pelo menos 13 manifestantes mortos, segundo a ONG. Mídias estatais iranianas também relataram ataques contra policiais e militares, em meio a uma crescente confrontação e falta de canais de diálogo efetivos.

O presidente Masud Pezeshkian chamou publicamente à “moderação” e ao “diálogo”, sem anunciar medidas concretas para atender às demandas econômicas ou políticas dos manifestantes. Setores mais duros do regime sinalizaram respostas mais severas: o jornal ultraconservador Kayhan divulgou vídeo alertando sobre o uso de drones para identificar participantes dos protestos.

O apelo de Reza Pahlavi trouxe um novo elemento político ao movimento, antes descentralizado e sem liderança visível. Ele convocou os iranianos a se unirem nas ruas e alertou que “a repressão não ficará sem resposta”, embora analistas digam que ainda não se sabe se sua figura pode articular uma alternativa política viável dentro ou fora do país.

O cenário internacional também aumentou a tensão. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington “interviria” se Teerã recorresse a repressão letal, declarações rejeitadas pelo Irã como “hipócritas” e injerencistas. Apesar disso, o Departamento de Estado divulgou imagens dos protestos e críticas à política econômica iraniana.

As manifestações atuais são as mais significativas desde os protestos de 2022, após a morte de Mahsa Amini sob custódia policial, quando o regime respondeu com repressão massiva, cortes prolongados de internet e centenas de mortos.

O contexto econômico permanece central. Com anos de sanções internacionais e crises regionais, o rial desabou em dezembro, chegando a cerca de 1,4 milhão por dólar, um colapso histórico. Para muitos iranianos, o aumento do custo de vida e a desvalorização da moeda agravaram a já fragilizada relação entre sociedade e Estado.

Com comunicações bloqueadas, cifras divergentes e repressão crescente, o Irã enfrenta um dos desafios internos mais complexos da última década, com a economia, política e controle autoritário disputando espaço nas ruas.

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